A transcendência da candidatura de Lula no contexto latinoamericano


O lançamento da candidatura de Lula no Brasil abre grandes expectativas não só para a retomada da democracia no país, mas para o estancamento do golpe neoliberal ao patrimônio estatal e nacional comandado por Bolsonaro e Temer desde 2016. Pairam no ar novos ares, expectativas num eleitorado crescentemente pró-Lula para estancar a sangria e recuperar a dignidade, o nível de bem-estar social, educacional, sanitário e os direitos trabalhistas, conquistados nos governos do PT, e basilares para avançar em direção a um processo de transformações sociais.

Ao mesmo tempo, o retorno de Lula é causa e consequência de uma mudança na relação de forças no conjunto da América Latina. O processo político continental reflete mudanças relevantes, com destaque às mobilizações populares que nos últimos anos têm sido decisivas. Produziram-se efeitos a eleição de Gabriel Boric no Chile e a derrota eleitoral de forças pinochetistas debilitando o neoliberalismo. A onda chilena foi resultado de grandes mobilizações de rua.

No Brasil não há ainda a mobilização popular a nível do Chile, ou do peronismo na Argentina, mas há uma vanguarda militante política e sindical muito ativa, que há anos resiste ao golpe de estado de 2016 e à eleição fraudulenta de Bolsonaro. Esta relativa deficiência na capacidade de mobilização coloca em destaque o papel de Lula, o primeiro dirigente operário que a partir dos sindicatos construiu um Partido dos Trabalhadores e foi duas vezes presidente do gigante Brasil. Lula, concentra uma experiência de estadista latino-americano e mundial apoiado pela classe trabalhadora. Lula é liderança que pode mover multidões quando as convoque. Por isso, tanto temor de vastos setores da burguesia com a sua possível vitória.

Por trás da decisão da candidatura de Lula, do PT e das forças de esquerda e progressistas do Brasil, está uma América Latina que retoma os processos progressistas da década passada.

A Bolívia, recuperou o rumo do governo popular com Luis Arce e Evo Morales, através das urnas, mas a base foi a enorme e constante mobilização do povo e sua coragem, apesar dos mortos e agressões.

Honduras, elegeu nova presidenta socialista Xiomara Castro, após anos de resistência e lutas,  e a Nicarágua que enfrentou e venceu a tentativa de “revolução colorida” do imperialismo, reafirmando suas metas revolucionárias reelegendo Ortega

Tudo isso fortalece a perspectiva de uma vitória progressista no Brasil, como na Colômbia, debilitando o governo reacionário de Duque, propensa agora a eleger o candidato da esquerda, Gustavo Petro.

A candidatura de Lula, é o ápice deste processo continental de reação ao aprofundamento do golpe promovido pelas finanças internacionais, aliada do narcotráfico e da indústria armamentista e de guerra dos EUA contra o processo de integração latino-americana que se desenvolveu na década passada sob a liderança de Hugo Chávez e Fidel Castro, quando do “Não à ALCA”, apoiados por Lula, Néstor/Cristina Kirchner, Rafael Correa e Fernando Lugo.

A Argentina atual, em dois anos passados de governo popular, corre contra a corrente do neoliberalismo que tenta manter-se e recuperar seu status. Apesar das consequências da pandemia, e da herança maldita, da dívida com o FMI deixada pelo governo anterior de Macri, o povo argentino tem Alberto Fernandez e Cristina Kirchner que, não obstante as diferenças sobre pontos de vista das medidas concretas, ritmos, alvo e instrumentos contra o poder hegemônico, a Frente de Todos discute manter a aliança política, atenta às provocações golpistas do macrismo, em função dos excluídos e prontos a mobilizar as massas peronistas.

As sinalizações dadas por Lopez Obrador e Alberto Fernandez rechaçando a exclusão de Cuba, Venezuela e Nicarágua da Cúpula das Américas indicam a crescente oposição ao imperialismo, que conduzirá à extinção da OEA, e representará uma grande derrota para o imperialismo.  O México e a Argentina expressam seu rechaço à tentativa de dominação dos EUA articulada com a visita de Christopher Dodd, assessor especial de Biden. Maduro, ao mesmo tempo que agradeceu a Alberto Fernandez sua solidariedade, foi favorável a que este participasse na Cúpula das Américas para levar os protestos do Sul contra a hegemonia do Norte.

Isso significa que os governos progressistas da América Latina estão dispostos a não pagar o custo da guerra dos EUA e da Otan; não cair como a União Europeia, usada como bucha de canhão na armadilha de Biden para fortalecer a guerra contra a Rússia na Ucrânia. O caminho dos acordos comerciais com a China e a Rússia, e o fortalecimento dos BRICS, torna-se o alicerce sine-qua-non da reconstituição da integração latino-americana. A última reunião do Mercosul com a participação da Rússia é outro instrumento que pesa nesta nova reintegração dos governos e economias populares da América Latina.

Nesse contexto, o mesmo Lula que após 580 dias na prisão, enfrentou ao lawfare, conquistou a anulação de processos de condenação no STF, e foi inocentado perante a ONU, é mostrado como estadista pelo Time e fala abertamente contra a OTAN. Estas declarações de Lula vão na linha do constante apoio que o BRICS têm recebido como uma alternativa econômico-financeira importante para enfrentar as consequências da guerra imperialista dos EUA e seus grupos financeiros concentrados. Aplicar um projeto anti-neoliberal e estancar o desmonte do País empreendido por Temer/ Bolsonaro/Guedes é uma meta declarada do projeto de governo de Lula e do PT. É todo um programa: reconquistar as Estatais, defender a Petrobrás, a indústria naval, a soberania nacional, revogar as reformas trabalhista e previdenciárias, desmontar todas as aberrações que foram impostas pelos golpistas. Mesmo que a correlação de forças ainda não esteja definida para empreender tal programa, é a única forma de tirar o país da crise em que se encontra. Por isso a agressividade e o desespero da extrema direita.

As últimas chacinas e agressões policiais são um forte indicador de que é preciso estar consciente de que estas eleições não ocorrerão com a mesma normalidade. Bolsonaro está armando grupos e setores militares e milicianos e ameaça as instituições democráticas,  o STE e STF. Garante que tem a seu lado uma parte do comando do exército que comprou com altos salários, do centrão cujos deputados não representam seus eleitores já que a maioria reza a cartilha do bolsonarismo e tem sob seu controle um braço armado paralelo que são milicias prontas para atacar e tumultuar o processo eleitoral.

Muitos candidatos da chamada terceira via desistiram de suas candidaturas e aumenta a polarização entre Lula e Bolsonaro. Lula tem conquistado apoios nos principais centros como Minas, São Paulo, Rio e outras importantes cidades; são os governadores, parlamentares e parte importante da burguesia aderindo à sua candidatura porque veem em Lula a única saída capaz de retomar o desenvolvimento econômico, do crescimento do país e de reverter esse desastre econômico e social em que Bolsonaro transformou o País.

É importante ficar atento com as ações da direita bolsonarista, que se tornará cada vez mais agressiva. O presidente do STF Fux cancelou uma palestra no RS sob ameaças do bolsonaristas a dizer que ele não teria segurança pessoal. Inadmissível tal situação. Elon Musk vem ao Brasil para pescar em águas turvas, reunindo-se com Bolsonaro e empresários, alegando interesse em negócios, mas conhecendo sua história, há que ficar atento para articulações a favor dos golpistas. Os EUA não estarão a ver navios frente à ascensão das chances eleitorais de Lula, ou se aliam aos golpistas ou tentam condicioná-lo: a vitória de Lula alteraria profundamente a correlação de forças na América Latina, e não certamente em favor do imperialismo.

Por isso seria importante a vitória de Lula no primeiro turno e é nessa direção que é preciso  ampliar e consolidar as alianças, porém, sem perder o foco nos objetivos e de que não haverá outra chance: sendo o mais imediato derrotar a extrema direita, imediatamente retomar o projeto de crescimento com distribuição de riquezas, de reconquista da soberania; conquistar uma forte bancada parlamentar de esquerda e progressista e sobretudo apostar na organização e mobilização popular numa escala muito mais ampla que os passados governos progressistas.

Comitê de Redação

PosadistasHoje

28/05/2022

Foto da visita de Lula no dia da democracia na Argentina (crédito: Clarin)