As perspectivas para a Pátria Grande na América Latina

Chile (Foto crédito: El País)

“Renova-te

Renasce em ti mesmo.

Multiplica os teus olhos, para verem mais

Multiplica os teus braços para semeares tudo.

Destrói os olhos que tiverem visto.

Cria outros, para as visões novas.

Destrói os braços que tiverem semeado,

Para se esquecerem de colher.

Sê sempre o mesmo.

Sempre outro.

Mas sempre alto.

Sempre longe.

E dentro de tudo.

Cânticos Cecilia Meireles”

Vinte anos parecem pouco anos para a história, mas nos últimos vinte anos, seja pelo conteúdo como pela velocidade, ocorreram mudanças significativas nos processos históricos do mundo. Mudanças significativas na geopolítica mundial.

É impossível pensar os acontecimentos em cada país sem vinculá-lo à geopolítica mundial, ao esgotamento do neoliberalismo – que só trouxe miséria, desemprego, fortalecimento do poder das finanças, crises econômicas -, as revoluções coloridas, o poder do Deep States e as guerras hídricas patrocinadas pelo poder anglo-americano.

Por outro lado, também é impossível pensar estes acontecimentos sem considerar o fortalecimento econômico, político e militar da Rússia e China, do Vietnã, dos países da Ásia e outros países numa demonstração de que Outro Mundo é Possível. Ao mesmo tempo, é necessário desenvolver estes países, tirar milhares de pessoas da pobreza e acumular forças para enfrentar o imperialismo.

Os EUA destruíram o Iraque, a Líbia, o Afeganistão, a Siria mas saiu derrotado e humilhado do Afeganistão, e não consolidaram seu poder nestes países que vivem em eterna efervescência política. A Síria sobreviveu com seu nacionalismo revolucionário.

Há mais ou menos duas décadas a América Latina não só viu uma luz do fim do túnel, mas presenciou um clarão de esperanças com os governos progressistas e revolucionários de Hugo Chávez na Venezuela, Néstor e Cristina Kirchner na Argentina, Evo Morales na Bolívia, Tabaré Vasques e Mujica no Uruguai, Daniel Ortega na Nicáragua, Alan Garcia e Ollanta Humala no Peru, Michelle Bachelet no Chile, Fernando Lugo no Paraguai. Ao que tudo parecia, estávamos presenciando o renascer da Pátria Grande de Bolívar.

Com programas de inclusão social e um desenvolvimento econômico pontuado em defesa das riquezas nacionais, petróleo, minerais, alimentos, parcerias com a China, Rússia, Irã e outros países o continente latino-americano conseguiu tirar milhares de pessoas da pobreza. A Integração foi buscada, através da Unasul, da Celac, do Mercosul, Banco do Sul. O Brasil construiu o Porto de Mariel em Cuba, negociou um acordo do gás com a Bolívia. E se integrou ao BRICS.

Em substituição ao Consenso de Washington buscou-se o Consenso Sul Americano, a criação da PetroCaribe, PetroSul, Petro Andino. Buscou-se com certo sucesso o que chamamos de substituição de importação de produtos para o desenvolvimento de suas economias, e a nacionalização do petróleo, de telecomunicação e setores estratégicos da economia. 

Neste período, um fato histórico ficou mais visível aos olhos do mundo. A organização política, social e o modo de produção estatal chinesa foi se mostrando superior ao modo de produção capitalista e a China se transformando na locomotiva do desenvolvimento econômico mundial.

Se o capitalismo nos seus estertores foi capaz de gestar uma revolução industrial, revolucionar a forças produtivas, propiciar a destruição criativa, propiciar a melhoria de vida para milhares de pessoas em relação ao modo de produção feudal, com o passar do tempo foi acumulando crises, guerras, ações imperiais, criando instituições (FMI, BID, Bird, Banco Central dos EUA, Otan) que só servem para propiciar a acumulação de riqueza nas mãos das finanças e poder da indústria bélica militar. O poder dos EUA não está morto, mas em constante decadência.

E o que tudo isto tem a ver com a América Latina? Tudo. Para sua sobrevivência, os EUA, as grandes empresas anglo-americanas, europeias e as finanças internacionais buscam sua sobrevivência defendendo seus interesses em qualquer país do mundo. Aquele clarão no início do século XX foi apagado com golpes contra a Dilma no Brasil, o golpe contra Evo Morales na Bolívia, Lupo no Paraguai, a tentativa fracassada de golpe contra Hugo Chávez na Venezuela, Alan Garcia no Peru, a desestabilização política de Cristina Kirchner na Argentina.  Assistimos a sucessão de governos neoliberais no continente, vendidos aos interesses das grandes corporações e das finanças internacionais. Para isto foram utilizadas as “modernas” ferramentas das revoluções coloridas, o domínio da mídia pelas finanças, a guerra híbrida e as Fake News.

Como tudo tem limite, limite de sofrimento para o povo com perdas de vidas, degradação social, as massas se puseram em movimento. Na Venezuela e Cuba através das organizações populares, sobreviveram a estes ataques de desestabilização. As massas do Chile e da Bolívia deram seu sangue nas ruas em revoltas contra as políticas neoliberais.

Com a vitória de Alberto Fernandez/Cristina Kirchner na Argentina, Gabriel Boric no Chile, Luiz Arce na Bolívia, Lopes Obrador no México, Daniel Ortega na Nicarágua, José Pedro Castillo no Peru, Xiamora Castro em Honduras, a estabilidade de Maduro na Venezuela, a histórica resistência do povo cubano e a possível vitória do Lula no Brasil criam-se novamente a possibilidade do desenvolvimento do Consenso Latino Americano, persistentemente defendido por Hugo Chávez.

Novamente nossos olhos devem estar voltados para a geopolítica mundial. Não há dúvida que os EUA buscarão defender seus interesses econômicos e políticos na região, lançando mão de todo o arsenal midiático, econômico, guerra hídrica, revoluções coloridas, articulação de governos de direita, golpes e pressão econômica. Só não aprende com a história quem não quer ou que tenha uma posição ingênua frente à realidade.

Para se contrapor a esta ação nefasta, se faz necessário uma unidade política latino-americana. Resgatar as estruturas existentes que foram boicotadas como a CELAC, a UNASUL, MERCOSUL, o Banco do Sul e viabilizar a integração com soberania através do Brics, da Nova Rota da Seda, e da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (onde já estão o México, o Chile e o Peru). Consolidar a construção do canal Interoceânico conectando o Oceano Pacífico e Oceano Atlântico na Nicarágua em parceria com uma empresa chinesa, potencializando inclusive o Porto de Mariel em Cuba.   

No campo político, se articular para impedir os golpes e principalmente, ser prioritário a politização e mobilização das populações para garantir as mudanças necessárias a consolidação do poder popular. Do contrário, sem a devida articulação poderemos vivenciar novos retrocessos. Não se trata de pessimismo neste momento em que se abrem novas e revigoradas possibilidades políticas progressistas para a América Latina, mas precaução frente aos interesses desestabilizadores como conhecemos historicamente.

Tarefas se fazem necessárias para os novos governos. Além de reconstruir as economias devastadas pelo neoliberalismo, desenvolver políticas sociais imediatas para combater a pobreza. O desenvolvimento econômico enfrentará pela frente uma revolução tecnológica mundial, como por exemplo a utilização do 5G que está revolucionando a organização da economia. Estamos enormemente defasados destas tecnologias, com uma economia em crescente desindustrialização. Precisamos deixar de sermos somente exportadores de commodities minerais, petrolíferas e de alimentos e voltar a industrializar os países com forte integração tecnológica e utilização das nossas vantagens comparativas.  Unidade política latino-americana verdadeira. Populações organizadas e politizadas. É hora de consolidar a Pátria Grande!

E. Dumont

Economista, militante do PT (BH)  

09.01.2022.