Conflito na Ucrânia: debilidade do capitalismo e o fortalecimento do socialismo


A pura constatação de que os EUA têm em torno de 800 bases militares espalhadas pelo mundo é uma demonstração do caráter imperialista, genocida e opressor daqueles países, e que buscam manter sua hegemonia através da força e da centralidade com os países da OTAN.  E a Rússia e a China não terem estas bases militares é uma demonstração do caráter diferenciado destes países.

Analisando os fatos do ponto de vista histórico e em perspectiva, podemos constatar a profunda crise do capitalismo. Na transição do feudalismo para o capitalismo, a burguesia cumpriu um papel inovador das forças produtivas, possibilitando desenvolvimento, crescimento econômico, tirando milhares de pessoas da extrema pobreza. Combinadamente, o fez praticando o imperialismo, o colonialismo, a rapina da prata, do ouro, dos minerais das suas colônias, praticando genocídios, golpes de estado para defender os interesses das suas empresas transnacionais, realizando guerras Inter burguesas e por fim a tentativa de liquidar com a URSS na segunda guerra mundial.

Uma das primeiras industriais no início do capitalismo foi a indústria têxtil, principalmente, na Inglaterra e para sustentá-la inovou em tecnologia mas praticou a destruição de parques industriais em outros países que pudessem fazer concorrência à sua indústria, destruindo fisicamente, como foi a guerra do Paraguai, ou impondo tarifas de importação etc.

O capitalismo foi capaz, com o suporte do Estado empreendedor e financiador, desenvolver novas tecnologias, praticar a chamada criação destrutiva, inovando, mas trazendo consigo, uma brutal exploração da classe trabalhadora, que reagiu e impôs uma luta de classes nestes séculos de capitalismo. Desembocando na revolução cubana, russa e chinesa, e tantas outras revoluções nacionalistas, anticolonialistas, anti-imperialistas.

Hoje o capitalismo imperialista anglo-americano resiste sair da história e dar passagem ao socialismo, cujas bases são os Estados operários: transição do capitalismo para o socialismo, contendo elementos do capitalismo, mas com predominância de um Estado com outras características sociais, baseada  na economia planificada, monopólio do comércio exterior, propriedade estatizada combinada com a propriedade privada, controle operário aqui representado pelas estruturas de partido, do exército, da classe operária, do governo.

A base do conflito na Ucrânia é este processo histórico em curso. O marxismo analisa que a sociedade socialista será superior a sociedade capitalista, inclusive no desenvolvimento econômico. E é isto que estamos assistindo hoje. A China superior aos EUA. O parque industrial do EUA transferiu-se para a China.

Alguns irão argumentar que a China não é socialista e sim, capitalismo de Estado; que a Rússia também é um país capitalista; que nestes países predomina o “mercado”. Para início de conversa, o mercado existe em qualquer país, seja socialista ou capitalista. A diferença fundamental é que estes países passaram por revoluções comunistas que possibilitaram sair da época feudal para a transição ao socialismo. A URSS se industrializou e chegou a ser a segunda economia do mundo e com conquistas sociais fundamentais, e desenvolvimento em todas as áreas do conhecimento. A China saiu da barbárie para ter a capacidade de tirar da pobreza 800 milhões de chineses nos últimos 40 anos, ser o maior parque de manufaturas do planeta, ter um extraordinário desenvolvimento tecnológico, e durante os últimos 40 anos não foi atingida por nenhuma das crises que o capitalismo passou, numa demonstração do vigor de sua economia. Elevou o padrão de educação, moradia, alimentação, a renda per capita e bem-estar de 1,4 bilhão de pessoas.

Houve sérios percalços históricos como o stalinismo, a revolução cultural e o grande salto a frente na China, a desestruturação da URSS em 1990, a invasão nazista à URSS na segunda guerra mundial; mas do ponto de vista histórico estão sendo superados em decorrência da superioridade do Estado operário. Problemas existem nestes processos, como a corrupção, o enriquecimento de uma pequena parcela de empresários, problemas que precisão ser corrigidos como estão sendo enfrentado pelo Partido Comunista da China.

Enquanto os Estados operários estão superando estas dificuldades históricas, sem bases militares espalhadas pelo mundo, como tem o imperialismo anglo-americano que está caindo aos pedaços. Nos EUA, a dita maior economia do mundo privilegiou a especulação financeira e guerras em detrimento da produção, com a geração infelizmente de milhares de miseráveis. Pensou que transferindo o seu parque industrial para a China, conseguiria cooptar a China para o capitalismo, ledo engano. A China inteligentemente, soube se utilizar desta parceria para criar estruturas próprias e reafirmar sua soberania nacional.

Historicamente, vários processos em defesa e desenvolvimento da soberania de seus países foram abortados, destruídos, boicotados. Foram os golpes militares na América Latina contra governos nacionalistas como no Brasil, Chile, Argentina, na Bolívia, na Guatemala, e mais recentemente, as chamadas revoluções coloridas em várias partes do mundo.  Os golpes nos países africanos e em outros continentes.

O conflito na Ucrânia vai desencadear um processo represado há anos contra o papel imperialista anglo-americano. E com uma diferença enorme, os acordos de amizade infinita entre a Rússia e a China; a política propositiva de desenvolvimento da China com a Rota de Seda e todos os acordos na Eurásia vai mudando a correlação de forças mundial. Vão se criando instrumentos que viabilizam esta reação contra as mazelas dos EUA por parte das nações que querem se desenvolver. Vão sendo criados instrumentos contra a guerra de bloqueio econômico patrocinado contra países como o Irã, Cuba, Venezuela, Síria, China e a própria Rússia. Do ponto de vista econômico, se desenvolveram instrumentos para enfrentar esta disputa como a taxa de câmbio, o comercio com outras moedas como fez agora a Gasprom ao receber o pagamento pelo petróleo e gás somente em rublo. Agora mesmo, o Presidente da China propôs ampliar a participação de outros países no BRICS, criando toda uma cadeia de desenvolvimento com certa autonomia dos interesses das grandes empresas multinacionais norte americanas, que de uma forma ou outra também ficaram refém da cadeia de suprimento chinesa.

As nações estão percebendo que ao colocar dinheiro nos bancos dos EUA e da Europa ficarão sujeitos ao roubo por parte destes países que saquearam os dólares dos iranianos, dos venezuelanos e dos russos. Estão criando um sistema paralelo ao sistema swift, com a utilização de uma cesta de moedas. 

O mundo está vendo os efeitos das ações do imperialismo anglo-americano e da OTAN na Ucrânia, alta inflação, crise no abastecimento das cadeias produtivas, alto desemprego, pandemia do covid19, crise na saúde, baixo crescimento econômico. Situação já existente, mas potencializada com o conflito organizado e financiado pelos EUA e os países da Otan contra a Rússia. 

O papel de Rússia neste conflito é de fundamental importância ao demonstrar decisão política de enfrentar o imperialismo, ter economia e parceria com a China e outros países e poder bélico. Nada está descartado neste conflito, até mesmo uma guerra atômica, pois o Deep State dos EUA é capaz de lançar a humanidade numa guerra atômica. Corretamente, China e Rússia falam em guerra preventiva. De forma consciente ou não, vai-se constituindo um mundo multipolar, fora da centralidade dos EUA-Europa Ocidental.

As massas estão atentas, ainda em estágio de letargia na Europa Ocidental, com seus partidos de esquerda indecisos e até mesmo equivocados no seu posicionamento ao lado da Otan. Verdades virão à tona, como as fábricas biológicas financiadas e organizadas na Ucrânia, situação denunciada pelos russos para ser investigada pela ONU. Mais cedo ou mais tarde, estas massas, com a crise, as verdades anunciadas, se porão em movimento.

E. Dumont

Economista, B. Horizonte

20.05.2021