O Brasil no contexto da intervenção da Rússia na Ucrânia


Não temos nenhuma dúvida das intenções do imperialismo: fazer a guerra para buscar sair de sua crise econômica, social e política e principalmente, para enfrentar uma mudança na correlação de forças mundial produzida pela unificação China-Rússia. A eleição de Biden teve este objetivo. É o bipartidarismo estadunidense navegando no mesmo barco, em que pese algumas divergências internas.

A intervenção da Rússia na Ucrânia é legitima, pois, a Ucrânia, sob o mando de Zelenski, está cumprindo o papel de fantoche dos EUA e da Otan, se organizando para entrar na Otan e instalar armas atômicas no seu território. Situação inaceitável para a Rússia. Para a Rússia é uma questão de sobrevivência e de defesa da soberania, como disse o próprio Putin; para que a Rússia não seja novamente pega de surpresa como quando do ataque nazista à Urss. Como agravante, além do fornecimento intenso de armas à Ucrânia antes da intervenção russa, havia indícios de retomada da produção de armas nucleares, o que seria inaceitável em qualquer hipótese pela Rússia.

Interesses econômicos estão em jogo, daí o cancelamento da inauguração da instalação do novo gasoduto do NordStream 2.  É inaceitável para os EUA que a  Alemanha e outros países da Europa, além de depender do gás da Rússia, terem como maior parceiro comercial a China. Inaceitável na cabeça dos malucos anglo-americanos. Ao condenar a Rússia e apoiar sanções inauditas e graves contra este país, como o fechamento do espaço aéreo e outras, os europeus se tornam reféns do imperialismo norte-americano, sacrificando os próprios interesses.

Já assistimos a ações genocidas dos EUA na Líbia, Síria, no Iraque, Afeganistão. O mundo assistiu nos últimos tempos as revoluções coloridas que destituíram governos progressistas e de esquerda contrários aos EUA e colocaram governos de direita como foi o golpe na própria Ucrânia. Mas, a humanidade desconhece o que a mídia hegemônica global ocultou sobre o genocídio promovido pelo exército ucraniano e pelas milícias nazistas contra o povo em Donbas desde 2014, transgredindo os acordos de Minsk. Esta foi a segunda razão da intervenção russa defendida por Putin.

Tudo organizado pelos EUA, por pessoas como George Soros, Steve Bannon, a CIA e tantos outros grupos fascistas financiados pelo “Ocidente”, os mesmos que organizaram o golpe contra a Presidenta Dilma. Golpe este apoiado numa guerra cultural e numa oratória do ódio construída no Pentágono. A mesma estratégia utilizada para eleger Bolsonaro, que ainda mantém 25% das intenções dos votos, não obstante todas as atrocidades e crimes que cometeu. Após a guerra negacionista contra o covid-19 e as “vacinas comunistas”, assistimos agora a unanimidade midiática internacional contra a Rússia: “Putin é um ditador, um assassino”! e dá-lhe fakenews.

A Rússia seguramente se preparou para as sanções impostas pelos EUA, União Europeia, Japão, Austrália, Reino Unido, Nova Zelândia e Taiwan. Medidas que sem dúvida trarão enormes estragos à sua economia, mas que serão amenizados pelos acordos históricos entre China e Rússia. Sua exclusão do sistema Swift, acarreta impactos negativos para todos. Em todo caso, vai acelerar o funcionamento do sistema alternativo criado pelos russos, chineses e iranianos, como a moeda nova. Os russos não engoliram até hoje a desestruturação da URSS que podemos classificar como uma das primeiras guerras híbridas da atualidade.

Um dos maiores problemas que enfrenta a Rússia paralelamente é a guerra midiática. As mentiras do ocidente jogam a opinião pública mundial contra a Rússia. Putin agora virou Stalin e Hitler ao mesmo tempo. O senso comum da população é contra a guerra, contra as mortes, mas é fortemente manipulado, talvez no nível mais amplo visto na história. Como se não bastasse, agora são os meios de comunicação russos se tornam alvos de censura e bloqueio, isolando ainda mais as massas do mundo de uma informação alternativa.

Some-se a esta situação a confusão reinante entre vários partidos de esquerda e partidos comunistas contra a Rússia, sem compreenderem que ela, incluindo a sua liderança com Putin, mesmo em não se tratando mais da URSS, é uma aliada fundamental e decisiva na correlação de forças atuais frente à debilidade do capitalismo. Estamos frente a um estado de paralisia e capitulação das direções destes partidos, de abandono da Frente Única Anti-imperialista, abraçando um pacifismo neutralista.

Os problemas serão para a Rússia e a Ucrânia, mas serão maiores ainda para o capitalismo e países ocidentais imperialistas. Em se prologando o conflito, podemos assistir uma crise econômica global. A Alemanha está em apuros pois depende do gás russo, e a promessa dos EUA de abastecer de gás a Alemanha é uma coisa impraticável do ponto de vista logística. A Alemanha teria no caso voltar a utilizar o carvão, altamente poluente. Mais uma vez a Europa ocupada desde a segunda guerra mundial serve aos interesses dos EUA.

Qual o reflexo da ocupação da Ucrânia para o Brasil?

As duas últimas décadas assistimos um avanço da direita no mundo, com certo revés nas últimas eleições na América Latina. Como já sabemos, uma das armas da direita foi a capacidade de utilizar a tecnologia, o marketing e redes sociais de forma eficiente para a guerra cultural e discurso de ódio contra os governos e movimentos de esquerda. Junto com a Lava-Jato e setores do exército utilizaram o mesmo bordão para derrotar o PT: corrupção e comunismo. É isto que estamos assistindo nestes últimos dias “contra o comunismo russo e chinês”.

O movimento bolsonarista não é apenas da figura Bolsonaro. Conta com o apoio do exército que até hoje não abandonou a concepção do combate ao comunismo, que seria o inimigo; não é casual que o vice-presidente, general Mourão, ausente frente à guerra anti-pandemia, vassalo das privatizações de Guedes, interessado com a China somente para favorecer o agronegócio, se levanta agora contra a “invasão russa”.

A principal arma do bolsonarismo é o uso da tecnologia cibernética para manipular a opinião pública (em função dos interesses macabros do Deep State). O golpe não virá com tropas nas ruas – que não se pode excluir -, mas por dentro, com as mudanças na estrutura da polícia federal, na PGR, no STF, no parlamento, nas polícias militares dos estados e na eficiência do gabinete do ódio contra o PT. Faz parte do governo Bolsonaro a instalação do caos. Pode parecer estranho, mas é esta a lógica da ideologia bolsonarista, a ação destrutiva, desorganizando as informações e a capacidade de pensar das massas. Uma sucessão de notícias e fatos como as queimadas, mortes pela covid, desestruturação da educação, falta de verbas para a pesquisa científica, desemprego, inflação, desastres nas periferias, juros altos,  baixo crescimento, privatizações, e um tsunami de falsas notícias que dificulta as pessoas raciocinarem livremente. Esse é o mecanismo de fundo de todo golpe “suave” e das “revoluções coloridas”.

A conjuntura tem nos mostrado que para enfrentar o imperialismo anglo-americano além das armas e o desenvolvimento econômico, se faz necessário uma ação política, a formação de uma Frente única antimperialista. Frente que de uma forma ou outra está se estruturando com os acordos China e Rússia, Venezuela, Irã, Vietnã, Síria, Cuba e Nicarágua. É fundamental uma intervenção política das forças progressistas e revolucionárias a nível internacional pois a ação do imperialismo não vai parar e vai conduzir a humanidade ao desastre nuclear.  A colocação de prontidão das forças nucleares russas indica que há sinais claros de que assim vai proceder o imperialismo. A China o acusa de colocar gasolina no fogo, e assim é, com as medidas cada vez mais agressivas contra a Rússia, que chega ao limite intolerável como é o bloqueio do estreito do Bósforo, vital para a marinha russa, sem que este fosse o teatro da guerra. É uma declaração de guerra total. A estratégia do imperialismo é ter a opinião pública em seu favor enquanto avança em operações militares sem contenção para isolar a Rússia e impedir o florescer da sua aliança com a China. Toda vacilação, toda capitulação frente a esta pressão midiática anti-russa e anticomunista, serve para cobrir esta operação. E não há tempo para pacifismo neutralista, cego, indiferente, é preciso tomar posição firme contra o imperialismo em todos os terrenos! Mas é preciso estar politicamente preparado para isso. Sob as cinzas da Urss, ainda há uma chama acesa que se opõe à hegemonia imperialista no mundo. Não é por casualidade que a operação militar é feita sob o emblema da desnazistização, o povo soviético já pagou um preço muito alto pela natureza assassina do imperialismo. 

Em caso de guerra atômica, e estamos à beira de uma, não fará sentido discutir eleições de 22, não haverá projetos futuros, não haverá futuro para a humanidade. Tomar partido das forças imperialistas, da Europa assassina sob o mando da Otan, ou justificar as represálias à Rússia, é unir-se às forças mais sinistras que dominaram o mundo no período pós-Urss, ao fascismo e ao nazismo. É desarmar as massas, impedir que vejam que o inimigo da humanidade é o imperialismo com suas 1000 bases espalhadas pelo mundo e sua agressão constante aos povos do mundo.

Comitê de Redação

PosadistasHoje

25.02.2022