A crise do capitalismo e o surgimento de um mundo multipolar anti-imperialista


O fato do capitalismo estar em crise, e realmente está em crise, não significa que o poder econômico-político que o dirige reconheça que o sistema está com os dias contatos. Muito pelo contrário, reage das mais diversas formas para sobreviver.  O conflito na Ucrânia foi planejado, organizado, preparado com antecedência pelos EUA e alguns países da Europa. Numa constante e permanente ação pelo EUA para manter sua hegemonia, abalado por vários motivos.

De forma alguma este conflito interessa ao governo russo. Aos Estados revolucionários e operários interessam colocar todas as suas potencialidades a serviço da paz e do desenvolvimento, como pode fazê-lo a Rússia desde 2000 com a ascensão de Putin ao governo e de um setor disposto a resgatar das cinzas os objetivos da ex-URSS.

Legitimamente, a Rússia interviu na Ucrânia depois de se esgotarem todas as tentativas de negociações, como os acordos de Minsk e vê o cerco militar cada vez mais se aproximar de suas fronteiras. Seguramente, a Rússia se preparou para este conflito, mas temos que reconhecer que o bloqueio e todas as medidas globais contra a Rússia não deixam de trazer sérios danos ao país. Como não deixam de trazer consequências negativas para o bloqueio ao Irã, a Venezuela, à Cuba, a Coreia do Norte.

Não se pode ter nenhuma racionalidade no trato com os EUA, pois trata-se de um governo e um parlamento que assumem, cada vez mais descaradamente uma forma “legal” – o terrorismo de estado. São bilhões de dólares para financiar o governo fascista de Zelenski contra a Rússia. 

Os EUA financiaram a AlQueida para combater a presença dos russos no Afeganistão. Historiadores sérios sabem muito bem que foram setores dentro do próprio EUA que realizaram os atentados de 11 de setembro de 2001, e que faziam parte de uma estratégia, em nome do combate ao terrorismo, desencadear uma guerra contra nações que buscam uma independência do colonialismo anglo-americano e pelo controle do petróleo, principalmente, na região do Oriente Médio.

O enfrentamento ao imperialismo anglo-americano não pode ser guiado por nenhuma lógica racional. Destruíram o Iraque com a mentira da existência de armas de destruição em massa que nunca existiram e enforcaram Saddan Hussein em praça pública. Destruíram a Líbia e de forma macabra assassinaram Kadafi. Os EUA foram derrotados na Síria e no Afeganistão mas deixaram um rastro de destruição e morte. Deixaram um rastro de destruição no Líbano e nos países da antiga Iugoslávia.

A ação do imperialismo é uma reação à perda de sua hegemonia no mundo. Reage e busca impedir que o petróleo e o gás da Rússia cheguem a preços vantajosos na Europa; e o petróleo e o gás e petróleo chegaram. E agora, estão cortando este fornecimento, levando a uma crise econômica sem precedentes no mundo e particularmente para a Europa, muito mais virulenta que a crise financeira provocada pelos EUA em 2008.

Ré- memorizando um pouco o percurso do imperialismo anglo-americano nos deparamos com Primavera Árabe, as “famosas” revoluções coloridas na Sérvia, Georgia e na própria Ucrânia; o papel subversivo das NED, USAID, CIA e ONG’s (Soros), Mossad, M16, MIT com as estratégias formuladas e disseminadas por Gene Sharp, protestos, greves, boicotes, marchas, desfile automóveis, contratação de mercenários para derrubar governos que não se alinhavavam com os objetivos do imperialismo anglo-americano. No Brasil assistimos o golpe contra o Governo Dilma e a prisão ilegal do ex- Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O objetivo de desestruturar a Rússia vem desde a estratégia de Brzezinski contra a URSS. As tentativas de desestabilizar a China fomentando o separatismo no Tibete, com a CIA financiando o Dalai Lama. E agora, as ações de desestabilização dos EUA em Taiwan. Elegendo a China como ameaça global, pois trata-se de uma sociedade que vai demonstrando sua superioridade no seu modo de produção e organização da sociedade. Para não irmos muito longe, basta constatar a existência de uma rede mundial de bases militares dos EUA espalhada pelo mundo afora. A ocupação militar da Europa por parte dos EUA. O modus operante do imperialismo é militarização, guerra, terrorismo e narcotráfico, para ter o domínio militar sobre áreas petrolíferas e regiões ricas em reservas minerais.  

Muitas avaliações já foram realizadas sobre os significados da desestruturação da ex-URSS. Fica cada vez mais claro que foi uma grande ilusão de Gorbachev e de setores da ex-URSS de que os EUA e países da Europa iriam abrir mão da Otan por conta da desativação do Pacto de Varsóvia e que a Otan não iria se expandir. Aconteceu tudo ao contrário, esta é a lógica do capitalismo e do imperialismo anglo-americano. Os antigos países pertencentes à antiga ex-URSS e ao Pacto de Varsóvia foram incorporados a Otan.

A história do imperialismo anglo-americano é de domínio, guerra, morte e destruição, sem piedade, sem ética, desrespeitando os fóruns mundiais. Diante de sua crise, os  EUA buscam manter sua hegemonia nos organismos econômicos internacionais (comerciais e financeiros), tais como Organização Mundial do Comércio (OMC) e o Fundo Monetário Internacional (FMI); manter sua hegemonia política através do controle, tanto quanto possível, do Conselho de Segurança das Nações Unidas; manter a vanguarda americana no desenvolvimento científico e tecnológico em termos de aplicações civis e militares, condição para sua hegemonia em outras áreas (a disputa pela hegemonia sobre os sistemas de comunicação e informação com o 5G); manter abertos os mercados de todos os países para seus capitais e para suas exportações de bens e serviços e, para esse fim, consolidar, por meio de negociações, normas multilaterais (como na OMC) e bilaterais (como nos tratados de livre comércio) que garantam essa abertura. 

Por todo este histórico, não há que ter ilusão que o imperialismo anglo-americano é capaz de lançar uma guerra atômica, não é uma questão de racionalidade, de que uma guerra atômica significaria o fim da humanidade. Não há racionalidade por parte deste “estado profundo” dentro dos EUA, tanto por parte de democratas e republicanos, com suas nuanças temporárias.

A revolução não se dá no campo de batalha que possamos escolher. E é isto que a Rússia está passando. Não está podendo escolher plenamente as condições para se estruturar e enfrentar ao mesmo tempo a guerra que lhe é imposta pelo imperialismo anglo americano e desenvolver sua economia, sua sociedade. Como discutimos anteriormente, não interessa a Rússia o conflito na Ucrânia, foi um conflito imposto pelo imperialismo. E como a Rússia não tem nenhuma tendência ao suicídio, reage com as “armas” que dispõe.

Mudanças significativas estão ocorrendo. A maior de todas, sem deixar de reconhecer a importância das outras, é a unificação China-Rússia. Em fevereiro de 2022 foi consolidado o acordo de amizade plena entre os dois países em todos os campos. O BRICS é outra estrutura sólida que seguramente, dará resultados positivos para a consolidação de um mundo multipolar. Mundo multipolar que os EUA estão buscando estrategicamente destruir, para manter sua hegemonia em plena decadência.

Outra iniciativa é a OCX. Foi realizada, em 14 de setembro de 2022, a 19ª Cúpula em comemoração aos 18 anos da Organização para Cooperação de Xangai. O evento foi sediado em Bishkek no Quirquistão na Ásia Central. O objetivo central da reunião foi demonstrar os avanços da Organização, além de identificar sua importância para o contexto regional e alertar os países membros frente as condicionantes protecionistas impostas pelos Estados Unidos na Guerra Comercial contra a China. Somado a isso, além da pauta prioritariamente de segurança e defesa, os fatores políticos, econômicos respaldados pelos investimentos em infraestrutura ganham cada vez mais espaço nas instituições euro-asiáticas, principalmente sobre a influência da Belt and Road Initiative. De acordo com isso, os países que se fizeram presentes foram os membros permanentes: China, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Uzbequistão, Índia e Paquistão. Além destes, estiveram os quatro estados observadores: Afeganistão, Bielorrússia, Irã e Mongólia. Bem como seis “parceiros de diálogo”: a Armênia, o Azerbaijão, o Camboja, o Nepal, o Sri Lanka e a Turquia – o único membro da OTAN no grupo.

Acordo comerciais, militares e estratégicos estão se estabelecendo entre China, Rússia e Irã, com a substituição do dólar como moeda de troca, com a utilização de moedas destes países, bem como o desenvolvimento de outro sistema bancário/financeiro em substituição ao sistema swifth. Processos em construção que demandam tempo, mas sistema consistente.

Por outro lado, a Rússia neste período de “paz” pode desenvolver um sistema de armas supersônicas significativamente superior ao arsenal bélico norte americano. E os russos já disseram que se este conflito na Ucrânia se generalizar, como pode ocorrer, sua reação será contra os “donos da guerra”, ou seja, os EUA.

O importante neste momento, compreendendo todo este processo histórico, é termos claro a importância de apoiarmos politicamente as ações da Rússia/Putin na Ucrânia. 

Neste momento, é importante entender que a ação do imperialismo na Ucrânia além de fazer uma guerra contra a Rússia, tem por objetivo criar uma “primavera russa” para desestabilizar e retirar Putin do governo, e o setor vinculado a ideia de recompor, em outros níveis, o que foi a URSS, única forma de combater o imperialismo.

A Rússia tem uma fragilidade que é o sistema eleitoral parlamentarista – muito próximo do sistema parlamentarista falido da maioria dos países ocidentais. Sistema vulnerável a estocados por parte de ações “ala Soros”. Até então tem dado conta de manter a Rússia nos seus objetivos. Muito diferente do PC Chinês que não está sujeito às manipulações “parlamentarista ocidental”, ou o PC Vietnã. Há que considerar a existência dentro da Rússia, de alas revolucionárias e alas neoliberais, numa constante luta pelo poder, logicamente, sendo o partido Rússia Unida como a maior força, e Putin com 78% de aprovação do povo russo neste momento de conflito com a Ucrânia. 

Os partidos de esquerda, progressistas, os sindicatos, precisam exercer o internacionalismo revolucionário, sendo contra o bloqueio à Rússia, Irã, Venezuela e o boicote a China por parte dos EUA e países da Europa. Apoiando o BRICS, Mercosul e a OCX. Contra a expansão da Otan e ao terrorismo de estado dos EUA. Pelo fim da Otan. Pela libertação do Assange.

Como a ação do imperialismo anglo-americano é sistêmica/global, a ação revolucionária também tem que ser internacional. Estamos assistindo um ciclo de eleições de governos progressistas e de esquerda na América Latina – e sem terem tempo para consolidar um programa nacional desenvolvimentistas-, sofrem golpes e desestabilização parlamentar, e na sequência, assumem governos neoliberais. Diante desta situação, se faz necessário buscar uma estratégia para estabilizar os governos de esquerda, numa perspectiva de enfrentamento global com o imperialismo.  

Seguramente, como já está acontecendo, as massas se porão em movimento contra toda esta situação, principalmente na Europa. Há um descompasso entre a crise do sistema capitalista mundial e a existência de governos de esquerda na Europa, em virtude, dentre outras coisas, da falência do sistema parlamentarista do mundo e da capitulação dos partidos comunistas e de esquerda, com raras exceções como o partido França Insubmissa.  

Na ausência de um Internacional que organize a luta anti-imperialista a nível mundial, ter em conta que vão se formando blocos de países no campo dos Estados operários, países nacionalistas revolucionários e progressistas nas áreas da economia com desdobramento no campo político. Com se tem dito, construir um mundo MULTIPOLAR, para organizar as forças para enfrentar o imperialismo norte americano que não quer abrir não da sua HEGEMÔNIA unipolar.  

Eduardo Dumont
Belo Horizonte, 17 de setembro de 2022