A importância histórica do novo Pacto entre a China e a Rússia no contexto das provocações de guerra do imperialismo na Ucrânia


No dia 4 de fevereiro, antes da abertura do XXIV Jogos Olímpicos de Inverno em Pequim (boicotado pelos EUA), Putin e Xi-Jinping firmaram um pacto histórico de cooperação que acelera profundamente a crise do capitalismo a nível mundial. Esta se agrava duplamente. Primeiro com a derrota estratégica que lhe cria esta união histórica, Rússia-China.  Segundo, porque derruba os planos militares imediatos dos EUA e da OTAN de provocar a guerra na Ucrânia contra a Rússia.

Em um dos vários pontos do acordo, A Rússia e a China se opõem às tentativas de forças externas de minar a segurança e a estabilidade em suas regiões adjacentes comuns, pretendem combater a interferência de forças externas nos assuntos internos de países soberanos sob qualquer pretexto, se opõem às revoluções coloridas e aumentarão a cooperação nas áreas mencionadas”. Ou seja, “A China apoiará a Rússia em seus esforços para impedir que os EUA/OTAN/UE transformem a Ucrânia em uma anti-Rússia ou derrube governos amigos da Rússia”. Da mesma forma, condenaram a nova aliança militar da AUKUS (Austrália-Inglaterra-Estados Unidos). A China e a Rússia pedem que os Estados Unidos respondam positivamente à iniciativa russa e abandonem seus planos de implantar mísseis terrestres de alcance intermediário e curto na região da Ásia-Pacífico e na Europa. A China é solidária e apoia as propostas apresentadas pela Federação Russa para criar garantias de segurança juridicamente vinculativas de longo prazo na Europa”. “A Rússia não permitirá que os EUA cerquem militarmente a China; e a China não permitirá que os EUA cerquem militarmente a Rússia. A Rússia e a China estão de costas um para o outro e se protegerão, frustrando assim qualquer plano da Anglo de cercar uma ou ambas as nações”. O compromisso é bastante forte. Inclusive a Rússia apoia o princípio de “Uma só China”, “confirmando que Taiwan é uma parte inalienável da China e se opõe a qualquer forma de independência de Taiwan”. (*)

Há que dar atenção às estruturas político-sociais, de fortalezas de Estados operários chinês e russo (golpeados no fim do século passado, retrocedidos em aspectos, mas vivos) que estão por trás deste acordo histórico: as relações entre a Rússia e a China são superiores às alianças políticas e militares da era da Guerra Fria”. “Rússia e China decidiram estabelecer uma verdadeira ‘amizade que não conhece limite’, que é uma irmandade muito maior em escopo e muito mais profunda por natureza do que qualquer aliança formal”.

Este Pacto se firma no cenário de Olimpíadas que conjugam a grandeza humana, cultural e esportiva da China como todos os atos massivos anteriores, inclusive a apoteótica comemoração passada do aniversário do PC Chinês: “A OTAN é uma super-estrutura agressiva, violenta e totalitária, para impedir que qualquer país alcance a soberania.”… “Sua natureza é imperialista e seu lema é “divide e impera”. “Vamos nos opor a esse tumor maligno geoestratégico juntos”.Enfim, a Declaração, pouco difundida na mídia, deixa claro que o Pacto estabelece que a delimitação de um bloco e outro não é apenas militar, nem de fronteiras, mas de sistemas de concepção social opostas.  “Rússia e China concordam que a nova ordem mundial pós-ocidental que eles querem alcançar será baseada na fraternidade e solidariedade de todos aqueles países que, em vez de explorar todo o planeta para o benefício de alguns, querem ver um sistema internacional baseado em valores compartilhados e não na ganância e na opressão dos fracos pelos fortes”. Enfim, é algo que tem pouco a ver com o predomínio da economia de mercado.

Há dois elementos de progresso nas direções da Rússia e China: a sua união imprescindível como Estados socialistas, e a preocupação de conscientizar a humanidade de que a guerra é inerente ao sistema capitalista. J. Posadas, nas suas obras publicadas deixou bem claros os conceitos de que “o capitalismo é a guerra, e o socialismo é a paz”. Assim como alertou que os setores concentrados do capitalismo mundial lançarão, num ato barbárico de sobrevivência sistêmica, inevitavelmente, a guerra atômica contra a humanidade, como já o fizeram em Hiroshima e Nagasaki; só que não se sabe quando, como e nem onde.

O acordo China-Rússia no contexto desta crise estrutural do capitalismo

É a continuidade de um processo de integração e cooperação regional, que vai chegando a patamares cada vez mais altos em termos de cooperação militar, tecnológica, econômica, cultural; uma verdadeira integração entre potências, cujo eixo é o enfrentamento e a disputa com o campo capitalista, envolvido em sua crise sistêmica, em suas contradições irrefreáveis.

Contradições de toda ordem, em que a Pandemia foi um papel de tornassol que permitiu colocar em evidência a impossibilidade do capitalismo de satisfazer às necessidades da humanidade, em todos os níveis, agravando o ciclo preexistente de queda econômica, com desastrosas consequências sociais. O aumento da desigualdade e o domínio de uma plutocracia financeira já era uma característica cada vez mais constante do capitalismo, em que a perspectiva de uma “retomada” aparecia cada vez mais insignificante no horizonte, revelando-se uma miragem. Nos EUA, a mudança de Trump para Biden não trouxe respiro, nem mesmo pela diminuição da intensidade – relativa, na verdade – da Pandemia. A Europa não decola e sufoca, navega à vista. O Brexit britânico em nada ajudou, pelo contrário. A França, a Alemanha, e timidamente a Itália, e outros países europeus, procuram um lugar ao sol, longe do conflito desejado pelos EUA. Como se não bastassem suas profundas crises internas.  

Eis que a resposta do sistema é a provocação militar global. A hipertrofia da Otan para muito além de seus limites “naturais”, pré desintegração da URSS, indica o percurso. O “democrata” Biden segue o script da supremacia yankee, buscando a guerra como um elemento de agregação interna, desviando a atenção dos milhões de famintos e vítimas de toda sorte de exploração e opressão nos EUA e sua periferia. E os EUA precisam arrastar a Europa nesta louca corrida.

Entretanto, no “outro lado do mundo” o processo não é este, ao contrário, é de crescimento, de cooperação, de investimentos, melhorias sociais, redução da pobreza, avanços tecnológicos extraordinários. E o centro deste novo Universo é a China, que todos os dias supera o capitalismo em todo os terrenos e, em sua originalidade, proclama a superioridade do socialismo. Agora, junta-se a Rússia e países aliados, que também resistiram à demolição geral da URSS, e se apropriaram das suas ferramentas mais poderosas de planejamento econômico, encabrestando o Capital, recuperando a soberania nacional perdida e de certa forma, respondendo às suas raízes sociais que ainda têm na memória os benefícios do período socialista.

O alcance deste novo “pacto sem limites” deverá demonstrar-se na prática, mas não à toa chamou a atenção da elite capitalista internacional, num contexto tenso, em que a Ucrânia é o novo laboratório para testar os nervos da Rússia, compactar as burguesias europeias e oferecer um novo cenário de cerco e dificuldades para a Rússia, impedindo sua expansão econômica, os benefícios do novo gasoduto NordStream2, a integração com os países europeus, fortalecendo a ala militarista e a OTAN.  Esta, sob o comando dos EUA, tem por objetivo impedir o fornecimento do gás russo para a Alemanha e logicamente, a consolidação de uma maior relação deste país com a nova configuração política e econômica comandada pela China e Rússia e outros países como o Irã, Venezuela, Cuba. Laços que se estenderam com a solidariedade entre vários países no combate à pandemia Covid 19, através das pioneiras e efetivas produções e difusão de vacinas.

Gasoduto russo
Nord Stream 2

A nova guerra por encomenda e às custas da Ucrânia e seu povo, já fracassou. Mesmo antes do pacto com a China, a Rússia havia demonstrado sua capacidade de abortar as tentativas de “revoluções coloridas”, na verdade cada vez mais sangrentas, como no caso do Cazaquistão. Desta feita, China e Rússia declaram que estão unidas nessa questão, o pacto está selado, e que não tolerarão novas agressões. Nas conversações de 6 horas em Moscou de Macron com Putin, este deixou claro que: A Otan não engana ao se autodenominar uma organização pacífica e defensiva. Os cidadãos do Iraque, Líbia, Afeganistão e Iugoslávia viram quão “pacífica” é a OTAN”. A França, como a Alemanha e países da União Europeia devem à Rússia garantias de segurança por parte da OTAN e EUA de “não expansão da OTAN e alastramento da Aliança de sistemas de ataque cerca das fronteiras russas, exigindo a volta ao estado de infraestrutura do bloque de 1997”. Evidentemente, trata-se de uma nova relação de forças em que não convém ao Macron o mesmo alinhamento à invasão contra a Líbia de Kadafi, e nem Putin é Medvedev que conciliou e abriu alas à OTAN.

Desde Sarkozy as coisas mudaram rapidamente até Macron, que é o outro lado da moeda, não uma continuação. Macron aliou-se à Alemanha e à Itália para reorganizar uma potência europeia contrária à hegemonia norte-americana. Na economia política, Alstom, Airbus, Siemens, euro, energia nuclear, ostpolitk, abertura ao mercado russo e luta contra o neonazismo; por outro lado, os Estados Unidos com Lockheed, Martin, Boeing, petróleo, o dólar, uma barreira contra a Rússia e a política pró-neonazista na Ucrânia (filho de Biden em Kiev). Esta contradição face a face reflecte-se por toda a parte, em todos os aparelhos e instituições, mesmo no Parlamento Europeu onde os pró-atlanticistas estão presentes através do PD (Partido Democrático) italiano. Putin, deixou claro que há elementos das relações econômicas com a Rússia que favorecem a burguesia europeia. O maior consumidor de gás russo é a Alemanha (5,6 bilhões de m3), depois vem a Itália (4,5 bilhões de m3). A Rússia trata de levar uma tática compenetrativa, buscando elevar relações com Draghi na Itália, para romper o apoio da U.E. à OTAN, alertando contra o apoio dado pelo Ocidente aos terroristas do Caúcaso. O alemão Olof Scholtz já começou a decidir pelos europeus ao dizer que a OTAN não entra na Ucrania, e Vlodymyr Zelensky tem que seguir e por um freio no secretario de estado dos EUA, Antony Blinken.

Neste contexto, frente às eventuais sanções, Rússia e China saberão como responder, com uma maior integração regional, e o enfrentamento aberto ao sistema financeiro internacional dominado pelo imperialismo e as suas altas finanças. A hipótese de um enfrentamento militar não é descartável, no qual a Otan pode sofrer a pior das derrotas militares, frente ao alto desenvolvimento balístico supersônico da Rússia, com consequências impossíveis de se prever, quando Biden anuncia a possibilidade de enfrentamentos entre russos e norte-americanos e chama o pessoal americano na Ucrânia de volta para casa, acompanhado de um ridículo “show midiático”.  A série de provocações é infinita, no mar da China, na Síria, y na Ucrânia o setor militarista do imperialismo não ficará de mãos abanando, mas apresenta-se cada vez mais debilitado, sem saída, desesperado, e por isso mesmo, perigoso.

Exército Vermelho russo-soviético

É muito importante que Putin argumenta na Coletiva de Imprensa em Moscou de final de ano (23/12/2021) com a história na mão, onde inclui Lenin e os bolcheviques na questão da Ucrânia. “A Ucrânia como um Estado foi criada graças a documentos adotados em 1922-1924. Mas vamos também tentar não esquecer como a Ucrânia tomou forma. Quem a criou? Lenin. Vladimir Ilyich Lenin. Quando ele criou a União Soviética, o tratado de 22 é o da União e o de 24 é o ano da Constituição, na verdade assinada após sua morte (de Lenin – ed), mas foi criada de acordo com seus princípios”, disse. “No processo de formação da URSS, os bolcheviques não perguntaram à população dos territórios que foram transferidos para a Ucrânia em que estado eles queriam viver. Portanto, eles inicialmente planejavam incluir o Donbass na Rússia, mas depois mudaram sua decisão”.

Estas declarações foram a prévia da sua decisão de reconhecer a independência de Donetsky e Lugansk. Putin, com firmeza, no Conselho de Segurança da ONU, denuncia as provocações do imperialismo, e expressa a segurança de enfrentar todas as medidas que o mesmo, aliado às burguesias europeias, possa armar contra a Rússia. Estamos diante de um salto dialético de revolução política e elementos de regeneração parcial dos Estados operários, hoje se sustenta na reunificação histórica da China-Rússia.  A alegria do povo de Donbass com a decisão de apoio russo, expressando o desejo de reincorporar-se à Rússia contra o retrocesso capitalista na Ucrânia é uma demonstração da memória histórica viva do que foi e ainda será a URSS para a humanidade. Seria hora de chamar os trabalhadores a ocupar as fábricas em Donetsky, Lugansk, estendendo a Karkhov contra os invasores imperialistas da Ucrania. A debilidade das direções dos partidos comunistas em geral, fazendo coro com a guerra da mídia hegemônica e das fakenews contra Putin e a Rússia, é um grave problema neste contexto.

O maior inimigo do capitalismo, porém, não é o poderio militar incomensurável da China e da Rússia juntos.

É o avassalador e imparável crescimento dos direitos sociais, o combate constante à pobreza, o aumento do acesso à tecnologia, à saúde, ao bem-estar, o desenvolvimento econômico, que estes países, embora ainda dependendo de fortes laços com o capitalismo, propiciam aos seus povos, aumentando o consenso e a coesão social. E este crescimento é cada vez mais abertamente associado à ideia do socialismo pela China, com suas peculiaridades. A Rússia entra de cheio neste processo, no qual as raízes do socialismo são ainda mais profundas; em que o capitalismo local obedece cada vez mais – e forçadamente – ao planejamento centralizado, subordinando-se aos interesses do Estado e dos povos ex-soviéticos. É inevitável que na Rússia eclodam contradições, mas a atual direção russa está decidida a enfrentar o imperialismo com todas as suas consequências. A política exterior de enfrentamento ao adquirir características de sistema contra sistema, vai incidir de alguma forma na politica interior com mudanças, estímulos à participação social e solidificação de metas socialistas. E é preciso ter em conta a sólida presença do histórico Exército Vermelho, legado de Trotsky, sobre o qual Putin exerce uma liderança importante, evidenciada nas comemorações do 75o aniversário da vitória do Exército soviético contra o nazismo na segunda guerra mundial.  O processo de integração com a China vai propiciar uma saída, e esta não será favorável ao capitalismo. Assim ocorre em toda a periferia asiática, em que o eixo é cada vez mais a China: Irã, Vietnã, Índia, mas também os BRICS, agora com a inclusão da Argentina.

Quando da revolução chinesa em 1949, a URSS teve um papel importante na defesa da mesma. A cisão entre os dois países ocorreu posteriormente como produto de interesses burocráticos contrapostos, particularmente da China do período de Deng Siao Ping que não responderam às necessidades basilares de união dos dois países, como Estados Operários.  Posteriormente, nos fins do século XX, a crise sistêmica do capitalismo e suas contradições internas se intensificaram, não puderam tirar proveito da queda da URSS, nem impedir o crescimento econômico-social do Estado operário chinês. A desintegração da URSS não foi o fim da história como pregaram os filósofos imperialistas, muito pelo contrário. Hoje a unificação da Russia com a China mudou completamente a correlação de forças mundial. Apesar de necessárias correções burocráticas e mecanismos capitalistas, o papel do Estado e da planificação estatal com metas socialistas, não foram relegadas e continuam sendo prioritários na China. O tema merecerá uma explanação futura mais detalhada. Mas, para corroborar com isto, a nova formação política, econômica e social da China, evidenciada nas metas esplanadas por Xi Jinping no último Congresso do PC Chinês, fez surgir uma potência econômica mundial, arrastando outros países na mesma direção.

Os EUA que tinha 45% do PIB mundial, hoje, detém 25%; com parte de suas empresas migrando para os países asiáticos, empobrecendo sua população, aumentando a criminalidade, enquanto o setor financeiro passa a ser um dos pilares da sua sociedade, tornando-se o principal inimigo do capitalismo norteamericano. A China detém 15% do PIB mundial, cresce a uma taxa de 5 a 10% por ano, é a segunda potencial econômica mundial, com maior reserva de divisas do mundo, e é o primeiro país em invenções tecnológicas. Logicamente, a luta de classes sobrevive dentro da China com greves dos trabalhadores, principalmente, nas empresas privadas estrangeiras, e o combate à corrupção é uma das prioridades do governo chinês. São manifestações de Estado operário ainda em transição ao socialismo, mas que já demonstrando que segue essa perspectiva histórica. A Revolução Chinesa, comunista e comandada pelo Partido Comunista Chinês nos últimos 40 anos foi capaz de tirar 850 milhões de chineses da pobreza e não foi atingida pelas crises econômicas neste período em 2008.

Salta aos olhos a melhoria do povo chinês em todos os campos da vida. O governo chinês foi capaz de contornar a crise da Evergrand comprando parte da participação da empresa em um Banco central, debelando qualquer contágio; e o Banco central injetou 790 bilhões de yuans (US$ 123 bilhões) no sistema financeiro em 10 dias para aumentar a liquidez. Enquanto os EUA realizavam guerras de ocupação e destruição no Oriente Médio, a Rússia se reestruturava assumindo novamente o controle de setores estratégicos da economia. A China se expandia com a Rota da Seda, com organização econômica na ASEAN, inclusive com o Vietnã seguindo o mesmo percurso sob o comando do Partido Comunista Vietnamita. Países como a Alemanha passaram a ter como principal parceiro econômico a China.

O pacto China-Rússia vai potencializar, aceleradamente todo este quadro particularmente na América Latina

O imperialismo anglo-americano apregoa que a China está se tornando um país imperialista, mas a realidade tem demonstrado o contrário. E este deve ser o caminho de muitos outros países. Veja o exemplo da Argentina que foi colocada numa situação extremamente complicada com o empréstimo impagável de 45 bilhões de dólares com o FMI contraída pelo governo de Macri, impondo uma negociação ao atual governo de Alberto Fernandez com o FMI, que tem por objetivo explorar o país impondo limites ao seu desenvolvimento soberano. Em recente visita à China, o presidente da Argentina declarou a Putin: “A Argentina tem uma dependência muito grande do Fundo Monetário Internacional (FMI) e dos EUA.  Necessitamos abrir outras portas e apostar no multilateralismo, sem ser satélites de ninguém.” Com estas palavras dirigidas a Putin em Moscou, Alberto dá um importante passo para aprofundar os laços decisivos entre os governos argentino e russo.  Alberto disse: “O contexto é muito favorável a estabelecer maiores vínculos entre a Rússia e a Argentina. Precisamos ver a maneira para que a Argentina se converta numa porta de entrada da Rússia na América Latina para que a Rússia ingresse de uma maneira mais decidida”.

Argentina abre as portas para a Rota da Seda

Em seguida, durante os eventos desta mesma XXIV Olimpíada de inverno em Pequim, a China e a Argentina assinaram vários acordos integrando este último à Rota da Seda, firmando acordos de 14 bilhões de dólares no Diálogo Estratégico para Cooperação e Coordenação Econômica, 9,7 bilhões de dólares no Grupo de Trabalho Ad Hoc. Assinaram 13 documentos de cooperação nas áreas de desenvolvimento verde, economia digital, área espacial, tecnologia e inovação, educação e cooperação universitária, agricultura, ciências da terra, meios públicos de comunicação e energia nuclear, infraestrutura, setor energético, rede de água, transporte e construção de moradias.

Frente ao cerco do imperialismo que quer transformar países como o Brasil, Argentina e países da América Latina em apenas exportadores de petróleo, alimentos e commodities, os acordos entre a Argentina e a China possibilitarão a reindustrialização do país, pois no passado de Peron (como de Vargas no Brasil) estes países puderam se industrializar. Alberto Fernandez disse que se XI Jinping fosse argentino, seria peronista. Por outro lado, Xi Jinping disse que “As Malvinas são argentinas”! Enfim, grande golpe ao imperialismo após a decisão da Argentina abrir as portas da América Latina aos acordos bilaterais c om a Rússia, e ao “Cinturão e Rota da Seda”; inclui-se nisso a provável entrada da Argentina no BRICS. Enquanto isso, Bolsonaro, servo do neoliberalismo nazi, que levou mais de 600 mil brasileiros à morte de covid, e demonizou as “vacinas comunistas”, chinesa e russa, deve render-se frente ao caos econômico e isolamento internacional a que reduziu o Brasil, e ir de joelhos a Moscou.

Aqui vai um parêntesis sobre o Brasil no contexto. Em 1995, a China estava classificada entre os países na posição de 46 abaixo do Brasil na posição de 25. Em 2019, assumiu a posição 16 colado aos EUA 13, com uma pauta de exportação de aparelhos de transmissão para rádio, telefone e TV, circuitos integrados e eletrônicos, computadores, peças e acessórios para máquinas e escritórios dentre outros produtos. O Brasil ao contrário, passou da posição de 25 para 53 com uma pauta de exportação de soja de grãos, milho, minério de ferro e concentrados de óleos de petróleo bruto. Enquanto a China deu um salto extraordinário no desenvolvimento tecnológico e na industrialização, o Brasil desindustrializou, ao ponto do Vietnã, que fez o mesmo movimento que a China, exportar hoje mais que o Brasil.

O Pacto China-Rússia deixa também uma mensagem política importante aos EUA e aos elaboradores de lawfare golpistas contra os governos progressistas da América Latina e do mundo. Não há que meter-se nos problemas internos de cada país, violar a soberania nacional dos mesmos. Agregaram que “as tentativas de certos governos de impor seus standards democráticos e sentir-se com o direito exclusivo e avaliar o nível de democracia de um determinado país representa um exemplo de violação dos próprios princípios de conceito. A democracia não dever servir como uma ferramenta para exercer pressões sobre outros países”. Esse serve como recado a Bolsonaro, ao Grupo de Lima e todos aqueles inclusive do próprio campo da esquerda que se equivocam na chamada “defesa dos direitos humanos” contra a Venezuela.

Este novo pacto vai dar sustentação e alento aos governos progressistas do resto do mundo, e em particular da América Latina, já que poderão contar com um polo dinâmico de apoio econômico, tecnológico, militar, para enfrentar a crise do capitalismo em seus países, como é o caso da Argentina, da Bolívia, Nicarágua, Venezuela, Peru, da recém-incorporada e pobre Honduras (onde Xiomara Castro se declara pelo socialismo), e muito em breve, do Brasil (com Lula presidente) e outros, que romperão gradualmente com as amarras ao sistema dominado pelos EUA, pelo dólar e pelo euro. Não se trata mais de uma aliança político-diplomática genérica, mas de suporte e intervenção direta, na integração com os países que cada vez mais se afastarão da órbita imperial euroamericana. Com o novo pacto China-Rússia, este processo se torna irreversível.

“Socialismo ou barbárie” (como dizia Hugo Chávez, reiterando a Trotsky) ressurge ao horizonte, mesmo que de “socialismo” pouco se fale em muitas latitudes e, efetivamente, na maioria das situações, não se trata de “socialismo”, e sim de “processo civilizatório”, como na África, na América Latina, nas regiões pobres da própria Europa e Estados Unidos, onde a desagregação social e ambiental é enorme, fruto das aberrações do capitalismo, em que as crises migratórias são a expressão inapagável e mais evidente. O acordo China-Rússia condena também as tentativas de alguns Estados de transformar o espaço sideral em arena de confronto armado, além de atividades de armas biológicas domésticas e estrangeiras pelos EUA. Enfim, este acordo põe a nu toda a decrepitude do império capitalista. Por isso, socialismo ou barbárie.

A conjuntura mundial vai tomando contornos nítidos, num processo desigual e combinado, com contradições inerentes a transição de um sistema para outro, do capitalismo para o socialismo. E assume uma velocidade nunca vista com a capacidade de planificação da economia chinesa sob o comando de um partido comunista chinês e a confluência de forças mundiais para enfrentar o imperialismo e construir o socialismo. Estamos vivendo novos tempos, com frutos que foram plantados nas revoluções como a Revolução Russa e a Revolução Chinesa que depois de superarem reveses advindos do atraso a quer foram submetidos historicamente, encontram as condições históricas para enfrentar o capitalismo sob a forma de imperialismo, e construírem o socialismo. Seguramente, na cabeça destas direções estão os cálculos que o capitalismo não vai dar os últimos suspiros sem antes lançar mais uma guerra mundial.   

Comitê de Redação

Posadistas Hoje

15/02/2022

(*) Partes traduzidas do Acordo, por Andrei Raevsky.

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