A propaganda midiática contra a Rússia e a perspectiva da guerra na Ucrânia


A mídia hegemônica, instrumento de guerra dos grandes cartéis econômico-financeiro-militares dos EUA é a principal formadora da opinião pública para sustentar a guerra das armas. Da mesma forma, pontos de vista vacilantes no campo progressista ou das esquerdas em relação ao papel da Rússia na intervenção na Ucrânia, geram dúvidas pouco construtivas. Há colocações como a do jornal Ilfattoquotidiano (divulgado na Itália) onde procuram dizer que Putin está numa situação sem saída pois os “ultranacionalistas” russos não aceitam a retirada parcial de Karkhov e a “hesitação do exército russo” na Ucrânia, prevendo uma rebelião contra Putin, alegando que há um clima de revolta pela lentidão da guerra, etc  Tal análise é insidiosa. Não chega a ser falsa, mas o fantasma da URSS é diverso do fenômeno dos ultranacionalistas. Há um embate aqui. É verdade que Putin teria preferido não entrar na Ucrânia, mil vezes terá pensado. De tudo tentou, como nos acordos de Minsk e outras advertências aos EUA, aos europeus, e à Otan. Mas foi obrigado a impedir o avanço desta última, o massacre de russo-falantes e da população russa, o avanço do nazismo ucraniano. Se se tratasse de uma classe capitalista cínica, poderia ter ignorado tudo isso, e continuado a fazer negócios com todos. Mas, porque o “Ocidente” precisava cercar a Rússia? Ela estava vivendo um período de progresso econômico, curando as feridas terríveis da destruição da Urss, inclusive no âmbito social. O acordo histórico com a China daria a ela novas perspectivas de desenvolvimento. A tranquilidade dos negócios com o Ocidente estava garantida, incluindo o Nordstream 2, tudo de vento em popa.

Uma guerra na Ucrânia não estava nos planos de Putin. Qual foi o motor, o “algo” que motivou então a intervenção? O ultranacionalismo russo? Certamente não foi a causa principal. Esse algo se chama: as brasas ardentes da URSS que estão ainda acesas. A memória histórica evocada por Putin da “Grande Guerra Patriótica” contra os nazistas é uma referência indireta, mas também a demonstração da consciência difusa do povo russo e ex-soviético, que sente há muito o cheiro de enxofre atrás das ações da Otan. Especularmente, foi a razão pela qual o “Ocidente” não quis cumprir os acordos de Minsk, pois poderia tê-lo feito tranquilamente, acalmando os extremistas ucranianos, postergando a entrada da Ucrânia na Otan, mas radicando fortemente a Ucrânia na Europa – até aí a Rússia nada objetava – deixando de lado a questão Otan. Mas não. O fundo do problema? Não só perda de hegemonia dos EUA vendo a Rússia se agigantar com a China, mas também, as tais “brasas ardentes”. Aquelas levam os povos a se rebelarem contra o capitalismo, mais cedo ou mais tarde. Vamos ver isso na Europa, no “outono quente” habitual, agravado pelas derivações das sanções.

Dito isso, de maneira muito sintética, a solução de Putin de uma “operação especial” limitada ao Donbass não poderia funcionar. Nunca. “Deznasificar” então, requer muito mais que uma operação do gênero. Quem tem problemas de marimbondo em casa, não elimina a colmeia cortando-a ao meio. Inclusive se a derruba, as vespas sentem o cheiro do resíduo que fica grudado onde estava, e a reconstroem. Não é que Putin não sabia o que poderia acontecer, em termos militares, o amplo, geral e irrestrito apoio militar e material ao regime de Zelensky, à exceção de envio de soldados (a “linha vermelha”). Mas tentou um atalho, uma operação breve, para depois negociar e neutralizar a Ucrânia, uma Ucrânia menor, pacificada e desarmada. Não era possível, e não é possível. O nazismo se multiplicou por mil, está na lapela da Van der Lyen, na russo-fobia, em todo lado. Como as vespas da parábola acima. Então, não há outra saída senão o que o jornal chama de “mobilização geral” e a guerra total até a vitória.

Assim foi com os nazistas, não se pode resumir a um contencioso local e depois o “deixa disso”. Sem tomar Kiev, não haveria vitória. Putin fez o que pôde para limitar a guerra, honestamente, e podemos até ver nisso um lado humanitário, de fazer menos danos civis, avançar devagar, evitar bombardeios generalizados, ao contrário dos brutos da Ucrânia. Mas guerra é guerra. Não é que Putin foi ingênuo: tentou de tudo para limitar o conflito, o que é outra maneira de dizer o mesmo. Leia. Inclusive usou a dissuasão nuclear, ameaçando de apertar o botão (como foi anunciado por vários ministros russos para manter a Otan longe da contenda), mas nada disso adiantou.

A revolução não se dá no campo de batalha que possamos escolher. E é isto que a Rússia está vivendo. Não pode escolher plenamente as condições para se estruturar e enfrentar, sobretudo quando a guerra lhe é imposta pelo imperialismo anglo americano e desenvolver sua economia, sua sociedade. Já dito anteriormente, não interessa à Rússia o conflito na Ucrânia; foi um conflito imposto pelo imperialismo. E como a Rússia não tem nenhuma tendência ao suicídio, reage com as “armas” de que dispõe.

Por isso, em Samarcanda, no Uzbekistão, durante a recente reunião da Organização de Cooperação de Xangai (OCS), Putin alertou: “Moscou respondeu com moderação aos ataques terroristas ucranianos contra infra-estruturas e funcionários civis, incluindo o ataque a instalações nucleares dentro da Rússia. Tal comportamento é inaceitável e, se a Ucrânia continuar agindo assim, a resposta russa será mais grave do que os recentes ataques sensíveis”. Isso, ao mesmo tempo em que Xi-Jiping fez um chamado aos países do grupo de Xangai a opor-se conjuntamente contra a intromissão de forças externas que estão preparando “revoluções coloridas”, sob qualquer pretexto, para controlar e meter-se nos assuntos internos de outros países. A decisão do imperialismo de acirrar a guerra mundial contra a humanidade através da Ucrânia, tem seus tentáculos na ofensiva do lawfare contra os governos populares da América Latina, conduzindo à pior expressão no atentado à Cristina Kirchner na Argentina.

Agora, ou a solução é total, com a tomada da Ucrânia, ou será um desastre militar de proporções enormes para a Rússia e aliados. Sim, se pode imaginar um período prolongado de enfrentamentos onde a Rússia estabelecerá novas fronteiras, e tentará manter o “status quo”, mas não é isso que pensa o “Ocidente”, nem os dirigentes ucranianos. Não se pode ter nenhuma racionalidade no trato com os EUA, pois trata-se de um governo e um parlamento que assumem, cada vez mais descaradamente formato “legal” para o terrorismo de Estado. São bilhões de dólares para financiar o governo fascista de Zelenski contra a Rússia. Hoje não há lugar geográfico fora do alcance dos mísseis, que a Ucrânia está recebendo em abundância. Até a Criméia pretendem “reconquistar”. Vão tentar retomar o que foi conquistado na operação Z. Disso não há dúvidas.

Mas, o chamado das repúblicas populares de Donetsk e Lugansk, além das regiões ucranianas de Jersón e Zaporozhie, a realizar um referendo para decidir sua possível adesão à Rússia indicam que a resistência ao nazi-facismo de Zelenski é vigorosa. E Putin, convoca 300 mil soldados reservistas russos e frente às chantagens nucleares da Otan responde: “Em caso de ameaça à integridade territorial de nosso país, certamente usaremos todos os meios disponíveis para a defesa da Rússia e de nosso povo. Isso não é um blefe.”

Então não há lugar para vacilações, ultranacionalistas ou não, só a mobilização geral e a vitória total até a rendição podem resolver a situação. Com todo o custo que implica. Caso contrário, com a derrota militar, ou a contenção da Rússia na trincheira das fronteiras do Donbass, o jogo do “Ocidente” será a desestabilização interna na Rússia, que é o que insinua o jornal italiano, e aliás, já está trabalhando por isso. Um novo front, além das provocações do Azerbajão contra a Armênia.  O jornalista Pepe Escobar informa e faz uma análise sobre o divisor de águas que significa a retirada das forças russas de Kharkov à margem esquerda do rio Oskol: “Talvez seja preciso um “golpe de martelo” para que o Estado-Maior Russo acorde. Mais cedo do que tarde, as luvas – de pelica ou não – serão retiradas. Fim da OME. Começo da Guerra.” 

Por outro lado, no campus do imperialismo, entre os EUA, arquiteto e mentor desta guerra, e a maioria dos aliados capitalistas da Europa existem contradições; estas sim, insustentáveis. Nem todos os segmentos das burguesias europeias estam dispostos a pagar pelo boomerang, pela rebelião interna e ser escudo de uma guerra atômica, usando o guarda-chuva da Otan. Até o momento 70% do arsenal recebido pela Ucrânia vem dos EUA. Boa parte da burguesia europeia, não poderá ser unânime frente aos mandos da Otan, com o colapso econômico e a contestação social já iniciada neste outono de fogo. Os governos europeus podem acelerar o pedal militar, como a anglo-americana, Lis Truss? Os trabalhadores e trabalhadoras da Europa começam a lutar contra a submissão dos governos à guerra desencadeada pela OTAN e pelos EUA. As Centrais sindicais CCOO e UGT na Espanha, além dos movimentos sociais na Alemanha já anunciam greves gerais contra a crise salarial, a inflação e os gastos de guerra. A vitória cantada pela mídia europeia sobre Kharkov e o fim da guerra está longe de ocorrer. Leia.

Outra pergunta que não quer calar (respondendo ao artigo do ilfattoquotidiano) é: o que tem a ver o socialismo e o comunismo com isso tudo? Nosso destino é aliar-nos com os “ultranacionalistas” – o termo propositalmente confunde, mas enfim – e com a direita europeia simpatizante do Putin?  É provável. Se houver oportunidade, nesta aliança aparentemente sem sentido, esta é também a maneira de combatê-los. As bandeiras vermelhas do exército russo e aliados representam algo diferente do nacionalismo. A comoção social das guerras é sempre geral – na Rússia, na Europa, na Ucrânia, onde for – e pode ter consequências imprevisíveis. O terreno é fértil para o nazismo, mas também para as revoluções, como foram todas as guerras. A questão é quem vai representar o “lado bom” contra o mal. Onde e quando vai surgir esta consciência, este rebrote das “brasas ardentes”, pois, finalmente, o que se vê é que para além da dinâmica dos fatos, a tragédia da dissolução da URSS revelou ao mundo, paradoxalmente, a sua necessidade, expondo as vísceras do capitalismo moribundo.

Comitê de Redação
Posadistas Hoje

21/09/2022

PS: Sugerimos leitura complementar do nosso colunista Eduardo Dumont no Batalha de Ideias.
Foto de destaque: Reunião da Organização de Cooperação em Xangai em Samarcanda (crédito: Azertag)