O desfile do exército russo a 77 anos da vitória contra o nazismo e o discurso de Putin


Apresentação

O desfile em Moscou aos 77 anos da vitória do Exército vermelho na luta contra o nazismo (1941/45) e o discurso de Vladmir Putin, merece o destaque que a mídia hegemônica não deu, assim como parte das forças politicas progressistas e da esquerda em geral.

A memória histórica sobre as atrocidades da expansão nazi-fascista centrados no capitalismo alemão e a defesa consciente do povo russo da União Soviética sobre as conquistas econômico-sociais que ela representou, mostrou plena vitalidade e expressou ser parte da decisão da Rússia atual de intervir preventivamente na Ucrânia contra a Otan para impedir o retrocesso total do que foi o alicerce de uma das maiores conquistas da humanidade, a revolução de outubro de 1917

Mesmo que os dirigentes russos atuais não mencionem o socialismo, os símbolos estão aí, inequívocos, na força massiva, na organização e consciência do Exército vermelho. Apesar do grande golpe à humanidade que significou a desintegração da URSS, a Rússia de hoje, resiste ao retrocesso total; Lenin e Trotsky estiveram vivos e presentes nesta homenagem, através da consciência dos soldados e da força histórica desta marcha.

A memória histórica demonstra toda a sua importância. Não por acaso uma das principais motivações declaradas para o desencadear da operação militar russa foi a “desnazificação” da Ucrânia. E não por acaso, o parlamento ucraniano

Resolve em plena guerra atual, anular os acordos estabelecidos anteriormente entre a Ucrânia e a Rússia, inclusive aqueles que garantiam a preservação da memória dos eventos da “Grande Guerra patriótica” que falava da vitória contra o nazismo, que unia o povo soviético sem distinção entre ucranianos e russos, e rememorava a opressão nazista, condenava a ação dos colaboracionistas ucranianos (hoje exaltados como heróis na Ucrânia). Esse foi o erro fatal dos dirigentes ucranianos, fomentados e financiados pelo imperialismo: recriar o nazismo, pensando que essa afronta aos russos e aos povos que constituíam a URSS passaria impunemente.  A Rússia de hoje e a ação do exército vermelho demonstra que é uma operação impossível: o nazismo voltará para o lixo da História, de onde nunca deveria ter saído. As mentes doentias dos dirigentes imperialistas, inclusive da alta burguesia europeia, revelam, novamente, como no passado, terem sido elas as progenitoras do movimento que levou Hitler ao poder e à agressão à URSS.

Mesmo que alguns dirigentes atuais da Rússia se considerem defensores de um capitalismo russo, a política exterior de defesa e dos territórios contra a expansão da Otan corresponde ao mesmo tempo a uma redução do poder desta nova burguesia. A necessidade de agir como Estado defensor de conquistas sociais que estão na memória histórica e concreta do povo ex-soviético, o esforço de guerra, e as próprias medidas do imperialismo de golpear a grandes empresários russos, reduzem o espaço para o capitalismo e recolocam na ordem do dia a retomada das conquistas da era soviética, que transparece por todos os poros. O próprio Putin com frequência condena a dissolução da URSS como um estelionato ao povo russo, e usa cada vez mais a linguagem dos dirigentes soviéticos daquela época.

São as raízes do Estado operário que rebrotam. Não as puderam exterminar. Prova disso é a histeria do mundo capitalista avançado contra a Rússia, pois identifica na guerra preventiva russa o renascimento das ideias e conquistas representadas pela URSS. Não são apenas símbolos, é uma possibilidade real, materializada na aliança Rússia-China e num tipo de desenvolvimento econômico e social que não fortalece o capitalismo em vastas regiões do mundo.

Por isso Putin defendeu a “guerra preventiva” no Donbass, “desnazificar e desmilitarizar” a Ucrânia, contra o genocídio em curso da população civil russófona desde 2014, e os ataques que se preparavam contra a Rússia através da Otan a partir da Ucrânia. Guerra preventiva, cuja necessidade J. Posadas mencionou outras vezes, na defesa da URSS, contra a agressão imperialista. A direção russa lança a guerra preventiva mesmo com o risco de uma terceira guerra global e nuclear, provocada pelo desconcerto de um capitalismo mundialmente decadente.

A ameaça da entrada da Finlândia e da Suécia vai nesse rumo; indica que o imperialismo norte-americano teme a morte, e se torna mais agressivo, então pressiona as burguesias europeias, as sufoca. Mas imediatamente este front bélico encontra resistências da Turquia e da Croácia que se opõem por razões pouco nobres, e fazem coro com o descontentamento de alguns setores da burguesia europeia que estão vendo o desastre que significa enfrentar a Rússia, e resistem a pagar o custo social da guerra e ser bucha de canhão dos EUA. Aliás, Erdogan não esqueceu que o golpe de estado contra ele contou com a participação da Otan, e dos seus “sócios”. A crítica de alguns militares italianos à agressividade da Otan é também uma sinalização. As elites europeias e anglo-americanas estão à beira de uma crise de nervos, sobretudo, quando o rubro se fortalece e o dólar despenca, e as represálias russas ao boicote do capitalismo mundial se tornam concretas, com o gás, o petróleo, e agora, as propriedades das empresas capitalistas na Rússia. O risco para a humanidade torna-se maior, quando no capitalismo, não há mais razão, e “passa-se das armas da razão à razão das armas”.

O outro lado da moeda, é a portentosa marcha em Moscou, trazendo à memória que a “Grande Guerra pela Pátria” não era somente pela “pátria”, era por todos os povos do mundo. Somente as estruturas socialistas e a existência da URSS permitiram tal heroísmo, e o povo russo hoje se faz presente, indignado e revoltado pela histeria anti-russa fomentada no Ocidente, pelo bloqueio midiático; o exército russo, expressa seu nível de consciência, de adesão aos povos, para além de suas fronteiras, pelos quais morreram e lutaram milhões de soldados e civis, demonstrando que não vão admitir que o nazismo novamente agrida a Rússia e o mundo. O povo de Donbas também festejou a chegada do exército de liberação russo em Mariupol, como no alçamento da bandeira vermelha no Bundestag em 1945. Os astronautas russos também comemoraram os 77 anos do dia da vitória a bordo da Estação espacial internacional.

Astronautas russos comemoram o dia da vitória

A reação dos povos europeus também vai se fazer sentir, pois veem a firmeza da Rússia, sua intransigência em derrotar os nazistas novamente. Apesar do bloqueio midiático, e do pacifismo cego dos dirigentes sindicais e da esquerda europeia, os trabalhadores e sindicatos e grande parte da população, conseguirão enxergar a mensagem que vem do desfile de Moscou e do seu 25 de abril em comemoração da vitória anti-fascista. Na Itália e em outros países europeus começam a surgir mobilizações contra a guerra da Otan e contra o empobrecimento da população, o encarecimento dos alimentos e produtos ocasionados pelo esforço bélico imposto aos europeus. O protesto social na Europa e nos EUA contra as consequências econômicas, fome, desemprego, a violência social, atentados, aumentará cada vez mais. Mas não é a Otan, não é o imperialismo norte-americano que decide os prazos, no terreno militar, a Rússia avança com firmeza e neutraliza a ajuda militar do imperialismo.

Tudo indica que o imperialismo não pode engolir a derrota. E a decisão dos Europeus – ainda não consolidada – e dos japoneses de não comprar petróleo russo, é outra declaração de guerra. Provavelmente suicida. Mas quando decidem entrar neste caminho, conscientes de que os povos europeus, dos Estados Unidos e do Japão vão pagar por isso um enorme “tributo de guerra”, é porque um setor consciente, das finanças e da produção de armamentos já está decidido – como nas vésperas da agressão nazista – a aniquilar a Rússia, que ainda representa as brasas vivas da revolução mundial e do socialismo.

Os movimentos pacifistas devem ter consciência da agudização da natureza de classes atual desta guerra. E preparar-se para Frentes-Únicas das esquerdas nos países e na Europa por programas de transformações sociais profundas junto ao Fora Otan! Tudo indica que não há volta atrás possível, não haverá acordo de paz, não haverá novo intervalo histórico, da Ucrânia não há meia-solução, armistício, pacificação, sem a derrota do nazismo. O único acordo pela frente é a rendição da Ucrânia, o redesenho das suas fronteiras, a desnazificação, a expulsão da Otan, e se isso chegar a ocorrer, será apenas uma trégua. Mas o recado já está dado: é o fim da era de impune expansão do imperialismo.

A resistência suicida dos nazistas em Azovstal, a siderúrgica de Mariupol libertada, indica que esta era a ordem do “Ocidente” e do imperialismo: ir até o fim. Acabaram por render-se, como boa parte do exército ucraniano. Mas, a vitória russa, não é só militar; baseia-se na razão histórica e sustentação social do povo de Donbas. Provou-se que o “crime” de Putin e da Rússia é a decisão de cumprir um dever histórico de libertação dos povos. A rendição e prisão e de altos ex-oficiais dos EUA no túnel de Laboratórios de armas bacteriológicas em Azovstal, são provas contundentes também do dano que cometeram os países na ONU na condenação à Rússia na questão dos direitos humanos. Quem são os verdadeiros transgressores: os EUA, a Otan e Zelenski. Saiba mais. Alguns governos progressistas da América Latina ainda não se alinharam com a coerência de Maduro da Venezuela em relação à Rússia. A história a absolverá.

Porém o cenário é novo, a China está firme, aparentemente parada, mas atenta e presente: fazem novas manobras no estreito de Taiwan, advertindo aos EUA. Os BRICS estão firmes, não caem na histeria anti-russa, olhando para os seus próprios interesses. A América Latina está à beira de uma reviravolta progressista, totalmente contrária à estratégia agressiva e suicida do capitalismo europeu. Leia artigo publicado no Debate de Ideias de E. Dumonts sobre o tema.

Todos falam do avanço da direita no país e no mundo como se houvesse uma direitização da sociedade. Isso é falso. Nas eleições na França, por exemplo Melenchón obteve um ponto a menos que Le Pen. O que teria acontecido se houvesse um segundo turno entre Melenchón e Macron? Supondo que Melenchon perdesse (isso seria o mais provável), quantos votos ele teria obtido? Nada menos que 41% que Le Pen conseguiu. E o que teriam dito: o avanço da esquerda? Porque, por outro lado, quais foram as abordagens programáticas do fascismo de Marie Le Pen? Não falou da superioridade da raça, nem da perseguição de negros ou judeus. Não, ele falou dos problemas que o povo sofre, mesmo se diferenciando à esquerda das propostas de Macron. Ou seja, é uma direita atual que sabe tirar proveito da insatisfação do povo que o capitalismo, muito menos Macron, não consegue mais resolver.

A Frente Mundial antimperialista se torna necessária e possível, apesar da ausência de uma Internacional Comunista como bem idealizou Hugo Chávez. Na prática, nas alianças econômico-estratégicas dos BRICS, da Eurásia, e da reunificação da América Latina, com protagonistas fundamentais anunciados no possível retorno de Lula à presidência do Brasil, vão tecendo os alicerces para um organismo internacional anti-imperialista e revolucionário.

Nos próximos dias e meses a humanidade assistirá a acontecimentos de dimensão histórica gigantescos, sem dúvida alguma. A memória histórica torna-se fundamental, vital, para que esta luta antinazista conduza, finalmente, a entender que a queda da URSS foi um trágico intervalo, mas que sem a luta pelo socialismo, não há futuro para a humanidade, e que a transitória ressureição do capitalismo nos antigos Estados operários foi um pesadelo mortal do qual há que se libertar.

Posadistas Hoje

10/05/22

Putin na Praça Vermelha

DISCURSO DE PUTIN NO DIA DA VITÓRIA EM MOSCOU

Discurso completo

Video do Discurso de Putin